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domingo, 10 de junho de 2012

Capítulo 9 - A manufatura e o armazenamento dos componentes do sangue


O sangue coletado deve ser usado nos pacientes da forma mais segura e benéfica possível.

A ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária considera o preparo do sangue e hecomponentes de grande importância e por isso, estabeleceu desde 2004 uma resolução que determina o Regulamento Técnico para os procedimentos hemoterápicos, incluindo a coleta, o processamento, todos os testes relacionados ao sangue e hemocomponentes como sorologia e tipagem Rh, o armazenamento, o transporte, o controle de qualidade e o uso do sangue e hemocomponentes. Esta resolução aborda coleta do sangue total de doadores voluntários, a coleta do sangue do cordão umbilical, da placenta e da medula óssea.

O preparo dos hemocomponentes

Durante a doação, o sangue, de um único doador considerado saudável, é coletado em bolsas plásticas quádruplas. O conjunto de bolsas é considerado estéril e apirogênico e deve ser usado somente uma vez.

O sangue coletado é armazenado em uma bolsa principal contendo uma solução necessária para que o sangue não coagule dentro da bolsa.

Após a coleta, o sangue deve ser centrifugado para separar por densidade celular seus componentes. Após a centrifugação, os lacres na parte superior e inferior da bolsa de coleta devem ser quebrado. Por expressão automatizada, o plasma é transferido para a bolsa superior; ao mesmo tempo, o concentrado de hemácias é transferido para a bolsa inferior que contém SAG-manitol (solução preservante para o armazenamento de hemácias).

No final da expressão do plasma e do concentrado de hemácias temos no interior da bolsa principal uma camada leucoplaquetária que deverá ser centrifugada novamente para a produção do concentrado de plaquetas.

Assim, o sangue total coletado de um único doador é dividido em 3 hemocomponentes diferentes, que devem ser armazenados em condições distintas de acordo com o indicado para um. Todos os hemocomponentes provenientes de sangue total são identificados com uma combinação única e clara de números tornando possível rastrear o local de coleta, o preparo de cada hemocomponente, o armazenamento e em qual paciente foi transfundido.

Armazenando os hemocomponentes

Algumas regras específicas sobre o armazenamento de cada componente do sangue foram estabelecidas e falam principalmente sobre a temperatura do armazenamento, já que o prazo de validade, que pode variar de 21 dias a 42 dias, depende do tipo de bolsa e preservantes utilizados.

Os concentrados de hemácias devem ser armazenados em geladeiras ou câmaras com temperatura de 2 a 6 graus, quando preservados em SAG-manitol tem validade de 42 dias.

Os concentrados de plaquetas devem ser armazenados em agitadores constantes para auxiliar a troca gasosa através da bolsa plástica em temperatura de 20 a 24 ºC durante, no máximo, 5 dias.

O plasma fresco congelado deve ser armazenado em temperaturas de 18 ºC negativos ou menos com validade de um ano. Após este período, este passa a ser considerado plasma simples e tem validade de mais 4 anos.

Quando se armazena sangue, a temperatura deve ser medida e registrada continuamente (cerca de 6 vezes ao dia) ou por meio de registradores gráficos de temperatura.

Cabines de resfriamento e salas de armazenamento de hemocomponentes devem ser limpas cuidadosamente e não podem ser usadas para guardar comida, amostras de urina ou tecido, ou qualquer outro item que possa transmitir vírus ou bactérias para os componentes do sangue. 
Liberação de hemocomponentes
Após o preparo, todos os hemocomponentes devem ser armazenados em estoque de quarentena de acordo com as temperaturas estabelecidas até que todos os resultados dos testes de sorologia e tipagem estejam disponíveis.

Os hemocomponentes liberados para uso devem ser separados dos hemocomponentes que ainda aguardam os testes de sorologia e tipagem e os liberados devem ser disponibilizados para uso em pacientes.

Controle de qualidade

Para garantir a qualidade dos hemocomponentes, uma amostragem deste e dos insumos utilizados para coleta do sangue total são avaliados pelo controle de qualidade. Os resultados dos testes devem estar dentro dos padrões de qualidade estabelecidos ou o sangue será descartado.

De forma a evitar a ocorrência de erros, todos os procedimentos são descritos minuciosamente. Qualquer procedimento diferente destas instruções deve ser descrito em um relatório especial, de onde é possível verificar como foram feitos e possíveis erros dos mesmos, diminuindo os riscos futuros. Desta forma, toda a produção passa por um processo contínuo da garantia da qualidade.

Resumo e questões

Durante a coleta, o sangue é colocado em uma bolsa de plástico, parte de um conjunto de quatro bolsas conectadas por tubos. Após a coleta, o sangue é centrifugado de forma a ser dividido em três camadas na bolsa principal, de acordo com a sua densidade. Cada camada é transferida para sua própria bolsa. As bolsas são separadas, possibilitando que cada conteúdo seja estocado em ótimas condições, de acordo com seu padrão específico. Cada um dos três componentes é armazenado de forma própria para que fique tão fresco quanto possível. O prazo de validade de cada bolsa depende ainda da temperatura.

Antes dos componentes do sangue serem usados, análises são feitas, verificando, por exemplo, o tipo sanguíneo e a existência de infecções. Para descobrir se a qualidade dos hemocomponentes é boa, são feitas também checagens aleatórias de acordo com um padrão de qualidade estabelecido.

  1. Nomeie os hemocomponentes que separados na bolsa da coleta.
  2. Como é feita a separação?
  3. Qual o prazo de validade de cada componente?
  4. Como o sangue é testado antes de ser usado nos pacientes?

Capítulo 8 - Examinando o sangue do doador



O exame ou análise do sangue doado contribui para a segurança do sistema de doação de sangue brasileiro. Além da entrevista mencionada no capítulo 7, e como forma de complementar os procedimentos de segurança, uma amostra de sangue é separada a cada coleta. A amostra do sangue é analisada e utilizada para verificar o tipo sanguíneo e a incidência de doenças infecciosas.

A cada visita ao banco de sangue o doador passa pela avaliação médica e pela entrevista, o sangue é coletado e, além dos 450ml, uma pequena amostra é retirada. Este capítulo trata sobre a análise desta amostra.

Analisando o sangue (Testes de Triagem Sorológica)

Antes de o sangue ser liberado para a transfusão, ele é analisado para verificar a presença de anticorpos ou de agentes patogênicos causadores de doenças infecciosas que podem contaminar o receptor. O sangue só é liberado para a transfusão se os resultados das análises obrigatórias forem todos negativos.



Os vírus, contra os quais o sangue é analisado, podem ser transmitidos das seguintes maneiras:
          • Transferência de sangue (por exemplo, uso de agulhas não esterilizadas);
          • Relações sexuais
          • De mãe para filho antes ou durante o nascimento, e durante a amamentação.



Os testes de triagem sorológica são realizados nos laboratórios onde especialistas são responsáveis pelas análises. As autoridades da saúde (Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária) estabelecem as diretrizes de como o sangue deve ser analisado e quais são os testes que devem ser realizados. Por isso eles são chamados de análise obrigatória (Resolução RDC 153 de 14 de junho de 2004).

As análises obrigatórias atualmente incluem: 

HIV - Pesquisa de anticorpos anti-HIV Tipos I e II
Como mencionado, o HIV é a sigla em inglês para o vírus da imunodeficiência humana (VIH em português). Cuja infecção, após um período de 5 a 15 anos, pode causar a AIDS. O método utilizado pelos bancos de sangue para detectar a infecção pelo vírus HIV é o mesmo usado pelos laboratórios em geral. Mas para garantir a segurança na transfusão sanguínea, é importante que as análises feitas pelo banco de sangue não sejam consideradas como uma maneira de conseguir “resultados de teste de HIV” isso é importante para evitar que pessoas possivelmente expostas ao vírus doem sangue. O sangue não pode ser coletado de uma pessoa que tenha o mínimo risco de ter sido infectada pelo HIV, esta deve procurar um laboratório ou serviços públicos (como o CTA – Centro de Testagem e Aconselhamento) que oferecem serviços gratuitos com esse objetivo no país.


Nos Centros de Testagem e Aconselhamento os pacientes podem escolher o médico de sua preferência e realizar os testes de forma anônima e gratuita. A lista está disponível no site:  http://www.aids.gov.br/tipo_endereco/centro-de-testagem-e-aconselhamento


Hepatite tipo B - Pesquisa de antígeno de superfície (AgHBs) e Pesquisa de anticorpos anti-HBc.
Se um adulto for infectado com o vírus da hepatite B, ele provavelmente desenvolverá a hepatite com icterícia três ou quatro meses após a infecção. Após mais 3-6 meses, a pessoa normalmente se recupera e fica sem o vírus.

Porém, em alguns casos, a pessoa não chega a ficar doente, mas o vírus fica no organismo, podendo infectar outras pessoas. Eventualmente em 20-30 anos, o indivíduo poderá desenvolver cirrose ou câncer do fígado. A infecção é particularmente preocupante em adultos com baixa imunidade e crianças.
  
Hepatite tipo C – Pesquisa de anticorpos anti-HCV
Quase sempre, não se observam sintomas na primeira parte da doença, entretanto, o vírus fica no organismo e aumenta o risco do desenvolvimento de cirrose ou câncer de fígado em 20-30 anos após a infecção ter acontecido.

Normalmente a transmissão da hepatite C ocorre através do sangue, razão pela qual o vírus HCV é muito comum entre usuários de drogas injetáveis que partilham seringas, onde um resíduo de sangue pode ser normalmente encontrado. Há poucos casos identificados em que ele tenha sido transferido sexualmente ou da mãe para a criança.

HTLV tipos I e II – Pesquisa de anticorpos anti HTLV I/II
O vírus T-linfotrópico humanos (HTLV) tipo I pode levar ao desenvolvimento da leucemia / linfoma de células T do adulto e a paraparesia espástica tropical (mielopatia) que é uma doença neurológica. O HTLV II foi associado com raros casos de doenças neurológicas.

Sífilis
É uma doença sexualmente transmissível conhecida também como lues, causada por uma espiroqueta conhecida como Treponema pallidum.
A doença é transmitida, principalmente, por contato sexual, da mãe para o feto pela placenta durante a gestação (sífilis congênita), e também por transfusão sangüínea.

Doença de Chagas – Pesquisa de anticorpos anti-T. cruzi
É uma infecção cujo agente causador da doença é um protozoário. Normalmente é transmitido ao homem pelas fezes do inseto conhecido popularmente como "bicho-barbeiro", "procotó", "chupança", "percevejo-do-mato", "gaudércio", etc. A transmissão pode ser feita também pela transfusão sangüínea, placenta e pelo aleitamento materno.

Resultado: Reativo

Se a análise do sangue apresentar resultado reativo durante a primeira análise, a amostra é testada mais duas vezes, usando-se a mesma técnica. Se na análise de repetição a amostra continuar apresentando resultado reativo, a bolsa de sangue é descartada e o doador é convocado pessoalmente pelo banco de sangue para coletar uma segunda amostra e realizar testes adicionais, além de oferecer orientação ao doador de acordo com a doença para a qual o resultado foi reativo.

Embora o índice de doadores portadores de doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue seja baixo, é importante que todos os doadores estejam conscientes da necessidade de se responder à entrevista clínica com honestidade e de não considerar o sistema de doação de sangue como um meio para obter resultados de exames laboratoriais.

A janela-imunológica ou o período soro-negativo

Como mencionado, a entrevista e a análise do sangue são precauções de segurança complementares com a intenção de identificar doadores cujo sangue possa estar contaminado e infectar aos pacientes com agentes patogênicos como vírus do HIV, HTLV I/II, Hepatites B e C, protozoários como o que causa a doença de Chagas e bactérias espiroquetas que causam a Sífilis.

Os testes sorológicos normalmente detectam doadores que tenham criado anticorpos contra o agente patogênico ou o próprio vírus como no caso da Hepatite B. E as respostas às perguntas da entrevista aumentam a chance de identificar doadores que tenham sido infectados recentemente (que tem quantidades significativas de vírus em seu sangue), mas ainda não tenham formado anticorpos contra os mesmos.

A janela imunológica é um termo referente àquelas semanas em que o doador carrega o vírus em seu corpo, mas ainda não formou anticorpos contra ele. O termo é usado devido a uma falha (uma janela aberta) existente no processo da análise. Este período também é chamado de soro-negativo, porque é o período em que a busca por anticorpos no plasma é negativa, mesmo existindo a infecção.

A primeira vez que o doador entra em contato com o vírus estranho (primeira imunização), o processo de formação de anticorpos demora um certo tempo. Por isso, o doador é mais infeccioso neste período em que a concentração do vírus é mais alta e ainda não existem anticorpos contra ele. Leva-se cerca de 3-12 semanas para que o processo de análise consiga detectar os anticorpos e assim, mostrar que o doador está realmente  infectado com o vírus do HIV. Estima-se que o risco de se contrair o vírus do HIV em uma transfusão de sangue no Brasil é de 1 em 60-120 mil transfusões.

Já a hepatite B, leva de 3-16 semanas após a infecção para ser detectada no sangue. Estima-se que uma infecção por hepatite B aconteça a cada 15-30 mil transfusões realizadas. A Hepatite C tem uma janela soro-negativo infecciosa de 8-24 semanas após a infecção. E supõe-se que a transmissão do vírus da Hepatite C aconteça 1 a cada 10-20 mil transfusões.

Devido à janela imunológica, os testes sorológicos não conseguem evitar a contaminação de agentes patogênicos na transfusão em 100% dos casos. A entrevista clínica é essencial para identificar doadores recém infectados que podem estar no período da janela imunológica, e por isso, é de grande importância que o doador informe sobre sua conduta, o chamado comportamento de risco, que possa levar a contração de uma doença. Ou, em último caso, use do “voto de auto-exclusão” para certificar-se de que não prejudicará ninguém. O voto de auto-exclusão é um sistema adotado pelos bancos de sangue para dar a oportunidade ao doador de dizer que ele não quer que seu sangue seja utilizado para transfusão sanguínea porque ele tem comportamento de risco para doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue. 
Alarme falso – falso positivo
Um resultado falso positivo indica que o teste apresentou resultado reativo na amostra do doador, mesmo este não estando doente. Felizmente casos como este acontecem em índices bastante baixos.

Falsos positivos acontecem porque as técnicas de sorologia usadas atualmente são tão sensíveis que podem mostrar uma reatividade não específica mesmo que não existam anticorpos contra o agente patogênico na amostra de sangue do doador. Você pode compará-las com um alarme contra assaltos hipersensível acionado por um ratinho curioso. O alarme toca, mas você não tem como saber apenas pelo seu barulho se foi apenas um ratinho ou se realmente há um ladrão na casa.

O teste possui três resultados possíveis:
  1. positivo, é detectada a infecção; e o doador é informado pelo banco de sangue dos locais para tratamento e sobre o risco de contaminar outras pessoas.
  2. negativo, não é detectada infecção; e o doador pode voltar a doar normalmente.
  3. ou inconclusivo, ou seja, não é possível dizer com segurança se a reação foi causada por anticorpos específicos do agente causador da infecção encontrados na amostra de sangue do doador.

Quando se realiza uma análise obrigatória, todas as amostras que apresentarem resultados reativos (reações mais fortes que os estabelecidos como sendo negativos) são testadas novamente usando-se técnicas mais aperfeiçoadas (testes confirmatórios). Essas técnicas conseguem determinar a reação de uma forma mais apurada e o resultado do segundo teste é sabido em algumas semanas.

Se o teste sorológico não apresentar um resultado reativo baixo e o teste confirmatório der inconclusivo, pode-se ser interpretar de duas formas: a) possivelmente a pessoa está infectada, mas ainda não formou anticorpos suficientes para produzir um resultado conclusivo do teste. b) o teste pode estar apresentando um resultado falso positivo.

Nestes casos, sugere-se que após alguns meses, outra amostra de sangue seja coletada e analisada. Se o doador estiver infectado com o vírus, a quantidade de anticorpos terá aumentado consideravelmente no período e a reação ao exame será definitivamente positiva. Este resultado mostrará que os anticorpos estavam presentes no sangue coletado. Se o doador não estiver infectado com o vírus, a reação do teste continuará inconclusiva ou pode ser definitivamente negativa. Entretanto, como ainda não é possível eliminar a possibilidade do doador ter sido infectado e formado anticorpos entre as duas doações, é impossível dizer com certeza que o resultado do teste é negativo.

Quando o resultado de três coletas estiver disponível, e pelo menos um ano tiver passado entre a primeira e a terceira coleta, se a reação continuar inconclusiva, podemos supor que:
  • Essa condição provavelmente não mudará (para a preocupação do doador);
  • O sangue do doador será provavelmente descartado a cada coleta;
  • O doador não está infectado, mas isso não pode ser comprovado até meses após cada coleta.

De forma a encontrar uma solução para essa situação, o médico do banco de sangue conversará com o doador e, normalmente, o aconselhará a esperar por pelo menos um ano, explicando que as precauções de segurança exigem que o seu sangue não seja usado até que se prove que ele não está infectado, mesmo esta probabilidade sendo mínima.

Resumo e questões

Junto com cada coleta, uma amostra de sangue é retirada e usada para verificar o tipo sanguíneo e para se fazer os testes de triagem sorológica.

Uma série de possíveis infecções é testada no sangue, normalmente verificando a existência de anticorpos contra vírus. As autoridades da saúde decidem quais infecções serão buscadas. Atualmente, todo o sangue doado é analisado para HIV tipos I e II; hepatite B e C e HTLV tipos I e II, Sífilis e Doença de Chagas.

Se as análises obrigatórias não detectarem infecções no sangue, ele pode ser liberado para a transfusão. Se o exame for reativo, o teste é repetido mais 02 vezes. Se apenas um destes testes der 100% negativo, o sangue não será liberado, e um novo teste, usando uma técnica diferente de análise, deverá ser realizado (teste confirmatório).

O resultado do teste confirmatório pode ser ou positivo – a infecção é detectada no sangue; ou negativo – a infecção não é detectada; ou inconclusivo – o resultado não pode ser determinado. O resultado inconclusivo significa que a técnica de exame é incapaz de determinar definitivamente se a infecção existe ou não no sangue. Este tipo de resultado normalmente é causado por técnicas de análise tão sensíveis que podem reagir mesmo não existindo nada no sangue.

No período de janela imunológica, o exame pode mostrar um resultado negativo mesmo que o sangue ESTEJA infectado. A janela imunológica é um termo que se refere àquelas semanas em que o doador carrega o vírus, mas ainda não desenvolveu os anticorpos contra o mesmo. Para atingir o máximo grau de segurança possível, inclusive durante o período da janela imunológica, é essencial que as perguntas feitas durante a entrevista sejam respondidas pelo doador com cuidado e honestidade. A entrevista e a sorologia são complementares, já que mesmo contaminado o resultado do exame pode ser negativo durante o período da “janela imunológica”. A entrevista, no entanto, pode indicar que o risco da infecção existe.

Quando o resultado do teste é positivo, mostrando que o sangue está contaminado, o médico do banco de sangue informará pessoalmente ao doador, e somente a este, o resultado; indicando as opções existentes de acordo com cada doença.

  1. Para que é usada a amostra de sangue retirada no dia da coleta?
  2. Quais infecções são testadas na sorologia?
  3. Como se chama o período em que o doador carrega a infecção, mas não tem quantidade suficiente de anticorpos para que esta seja detectada?
  4. O que significa um teste falso positivo?

sábado, 9 de junho de 2012

Capítulo 2 - A doação de sangue no Brasil



A história da doação de sangue no Brasil começa em 1879, com o primeiro relato acadêmico sobre Hemoterapia no País. A tese de doutorado, apresentada por José Vieira Marcondes, descreve experiências com transfusões de sangue realizadas até a época e discute se a melhor transfusão seria a do animal para o homem ou a entre seres humanos.

As primeiras transfusões de sangue no Brasil

Não existem relatos precisos de quando a primeira transfusão foi realizada no Brasil.

Sabe-se apenas que os médicos Brandão Filho e Armando Aguinaga foram os pioneiros nesta prática, no Rio de Janeiro, e que umas das primeiras experiências aconteceu por volta de 1900, em Salvador (Bahia) quando o professor de Clínica Médica, Garcez Fróes, usando um aparelho improvisado por ele, transfundiu 129 ml de sangue do doador João Cassiano Saraiva, servente do hospital, em uma paciente operada de pólipo uterino.

Outros relatos semelhantes são encontrados na tese de Isaura Leitão, sobre “Transfusão Sangüínea”, defendida em 1916. Também há referências não confirmadas de um procedimento realizado pelo Hematologista Estácio Gonzaga e o cirurgião Fernando Freira de Carvalho Luz, no Hospital Português em Alto do Bonfim, Bahia.

Do período Pós –Guerra aos dias de hoje

No Brasil, após o término da Segunda Guerra Mundial, com os progressos científicos e o crescimento da demanda por transfusões de sangue, surgiram os primeiros bancos de sangue privados: serviços especializados, de organizações simples, constando de um médico transfusionista e de um corpo de doadores universais (indivíduos do grupo sangüíneo O), que eram selecionados e examinados, para comprovação de suas boas condições de saúde.

Na década de 40, a Hemoterapia brasileira começou a se caracterizar como uma especialidade médica, e diversos bancos de sangue foram inaugurados, proporcionando oportunidades de comércio e lucratividade para muitos.

A doação de sangue foi remunerada por muitos anos no Brasil.
Um artigo dos anos 40, afirma que os doadores de sangue altamente selecionados eram remunerados a 500 réis por centímetro cúbico de sangue doado ou, no caso de doadores imunizados, a 750 réis/mm3. Que não admitiam doadores benévolos, nem de emergência. E que se o paciente não tivesse recursos para pagar os serviços e exames relativos às transfusões, estaria isento de qualquer débito; o pagamento ao doador deveria ser garantido pelo serviço de transfusão.

Nos anos 50, o fato mais importante foi a fundação da Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (SBHH) e a promulgação da lei nº 1075, de 27 de março de 1950, que dispõe sobre a Doação Voluntária de Sangue.

O sistema transfusional brasileiro continuou funcionando totalmente livre de controle governamental, na década de 60. E o Governo brasileiro se viu às voltas com graves problemas devido ao sistema de coleta baseado na remuneração em espécie do doador de sangue e a falta de controle por parte dos serviços de hemoterapia. Apesar da constatação de que o sangue era veículo de transmissão de doenças infecciosas, principalmente a hepatite B, a Sífilis e a doença de Chagas, os exames sorológicos considerados obrigatórios não eram realizados na maioria dos bancos de sangue do país.

O quadro no Brasil era negro: doadores profissionais “viciados” em doar sangue, sem observar os preceitos de higiene e os intervalos recomendados entre as doações; sangue coletado e transfundido sem critérios técnicos e higiênicos; nas regiões endérmicas de doença de Chagas, a transfusão de sangue representava um dos mecanismos mais freqüentes de transmissão.

Diante da situação, em 1964, o Ministério da Saúde criou um grupo de trabalho para o estudo e a regulação disciplinadora da Hemoterapia no Brasil, que resultou na formação da Comissão Nacional de Hemoterapia, em 1965.

A Comissão Nacional de Hemoterapia e o Ministério da Saúde estabeleceram, através de decretos, portarias e resoluções, o primado da doação voluntária de sangue e a necessidade de medidas de proteção a doadores e receptores; e disciplinou o fornecimento de matéria-prima para a indústria de fracionamento plasmático e a importação e exportação de sangue e hemoderivados. Entre as suas atividades destacam-se a implantação do registro oficial dos bancos de sangue públicos e privados, a publicação de normas básicas para atendimento a doadores e para prestação de serviço transfusional e a determinação da obrigatoriedade dos testes sorológicos necessários para segurança transfusional.

A Hemoterapia no Brasil tinha legislação e normatização adequadas, porém ainda carecia de uma rígida fiscalização das atividades hemoterápicas e de uma política de sangue consistente.


Até a Última Gota

Em 1980 foi lançado o filme/documentário “Até a última gota” dirigido por Sérgio Rezende, sobre o comércio de sangue nos países do terceiro mundo. Inspirado na morte do operário Jucenil Navarro de Souza; que desempregado vendia sangue para comprar comida para a família e que morreu na porta de um supermercado logo após ter vendido sangue a uma casa de saúde em Caxias, no Rio de Janeiro. O filme conta com o depoimento da esposa de Jucenil, além de vendedores, compradores e autoridades e pessoas que lutam contra esta prática e recebeu diversos prêmios como o Prêmio de qualidade do Conecine, entre os 12 melhores filmes de 1980; e o prêmio especial do Júri no Festival de Gramado.

A doação remunerada foi também tema de versos de Chico Buarque de Holanda – que ao contar as aventuras de um típico malandro carioca, em “Vai Trabalhar, Vagabundo”, canta: "Passa o domingo no mangue, segunda-feira vazia, ganha no banco de sangue pra mais um dia".


Assim, em meados da década de 70 e início da de 80, o Governo Federal começou a implantar o Programa Nacional do Sangue e Hemoderivados (Pró-Sangue), estimulando a criação de hemocentros estaduais. Em novembro de 1977 foi inaugurado o Centro de Hematologia e Hemoterapia de Pernambuco (HEMOPE), primeiro hemocentro do Brasil, construído com recursos dos Governos Estadual e Federal, e do Governo Francês. A este se seguiram outros nas principais cidades do País, tendo como diretrizes a doação voluntária não remunerada de sangue e medidas para segurança de doadores e receptores.

Na mesma época a Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, iniciou uma cruzada por todo o País, que culminou em junho de 1980 com a extinção da doação remunerada de sangue no Brasil.

Naquela ocasião, a estratégia para a obtenção do doador altruísta, a exemplo de países desenvolvidos, era conseguir o chamado doador de reposição (familiares e amigos dos pacientes) que eram sensibilizados e conscientizados para o ato de doar. Aquilo que parecia impossível aconteceu sem qualquer desabastecimento, que era o principal temor dos organizadores da campanha. O Brasil, que naquela época tinha 80% de doação remunerada, passou a ter exclusivamente doadores voluntários.

A década de 90 trouxe o fortalecimento da rede brasileira de hemocentros passando o governo a concentrar-se, a partir de 2000, na criação e implantação de um Sistema Brasileiro de Hemovigilância. Iniciado na área de Sangue, outros Tecidos, Células da Anvisa – Agência de Vigilância Sanitária, com a proposta de alcançar todos os serviços de hemoterapia e de saúde que realizam transfusão e procedimentos integrantes do processo do ciclo de sangue no País.

Em 2002, a regulamentação do artigo 199 da constituição de 1988, que dispunha sobre a participação da iniciativa privada no sistema de saúde e comercialização de sangue, entre outros, foi finalmente aprovada, ficando proibida a doação remunerada de sangue.

Segundo dados da Anvisa, o Brasil possui hoje cerca de 1,8% de doadores de sangue, sendo 50% destes doadores altruístas (doam sem saber para quem) e 50% de reposição.

A história do Voluntariado na Doação de Sangue Brasileira

Os primeiros registros de atividades voluntárias na promoção da doação de sangue pertencem à Cruz Vermelha, organização a que Leonora Carlota Osório, se filiou inicialmente, assumindo como bandeira o combate ao comércio de sangue e o incentivo à doação voluntária e altruísta de sangue, após chegar ao Brasil em 1939.

Na década de 50, foi fundada a Associação de Doadores Voluntários do Brasil, cuja primeira presidente foi Nair Aranha.

No início dos anos 60, Carlota Osório, fundou a Associação Brasileira de Doadores Voluntários de Sangue (ABDVS), para combater o comércio de sangue e divulgar a doação voluntária. Em 1964, o então presidente Castello Branco, proclamou em homenagem a organização e seu trabalho, o dia 25 de Novembro (data da fundação da ABDVS) como o “Dia Nacional do Doador Voluntário de Sangue”.


"Procure um banco de sangue público: nós doamos o sangue que você doou".

Foi o slogan criado por Carlota Osório para combater a doação remunerada do sangue, que comparava os serviços públicos com os privados existentes na época.
Atualmente, tanto bancos públicos como privados trabalham com a doação voluntária e fornecem gratuitamente o sangue para seus pacientes.


Por seu importante trabalho, Carlota Osório, foi condecorada em 30 países e, no 11o. Congresso da FIODS (Federação Internacional das Organizações de Doadores Voluntários de Sangue) que aconteceu no Rio de Janeiro, recebeu o título de presidente de honra, atuando de 1984 a 1987.

Em 1997, Márcia Tedesco Dal Secco e Maria Ivone Carraro de Mendonça convocaram antigas voluntárias da ABDVS e participantes do Clube de Serviço da Fundação Pró-Sangue Hemocentro de São Paulo para criarem a Associação Brasileira de Voluntários de Sangue (ABVS) que após dois anos de atividades na Fundação Pró-sangue tornou-se uma Associação independente, ligada a FIODS, e com o objetivo de promover a doação de sangue em todo o país.

Em 2000, a ABVS organizou a Assembléia Geral da FIODS em São Paulo reunindo representantes de organizações de doadores de diversos países e aproveitou o momento para homenagear a Leonora Carlota Osório, acrescentando seu nome ao da associação.

Passados 07 anos e com o surgimento de outras associações de voluntários do sangue no Brasil, assim como de Clube de Doadores. A Voluntários do Sangue decidiu re-estruturar sua atuação de forma estabelecer uma rede para a causa da doação de sangue, conforme solicitado pela própria FIODS. Buscando unir doadores, voluntários e organizações na criação de uma Federação Brasileira, sendo o primeiro passo dado nessa direção a organização do 2o. Encontro Latino Americano de Organizações de doadores de Sangue da FIODS, em Fevereiro de 2007.

Entretanto, devido à falta de estrutura e apoio o projeto “Corrente Sanguínea” que previa a criação de Clubes de Doadores e Voluntários do Sangue em parceria com Hemocentros e Bancos de Sangue, em todo o Brasil; a realização de eventos para o fortalecimento da causa e a comemoração do “Dia Mundial do Doador de Sangue” (14 de junho); não chegou a sair do papel. E em 2009, a ABVS encerrou juridicamente suas atividades. 

No entanto, aqueles apaixonados pela causa da doação de sangue nunca deixaram de acreditar que um dia a segurança transfusional por meio de doações voluntárias será realidade no Brasil. Este livro é a prova disto.

Estrutura e participação voluntária

Hoje a estrutura da coleta de sangue no Brasil é composta por uma rede de hemocentros públicos responsáveis pelo abastecimento de sangue nos hospitais públicos e alguns particulares e de diversos Bancos de Sangue privados ligados a hospitais particulares, responsáveis por abastecê-los.

Essa rede se reporta a Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que é o órgão do Governo, responsável por estabelecer os padrões nacionais para a doação de sangue, assim como fiscalizar o cumprimento das mesmas.

A coleta e a análise do sangue são de responsabilidade dos hemocentros e dos bancos de sangue. E são normalmente realizadas dentro das dependências dos mesmos, embora a coleta possa acontecer em locais diversos como escolas, empresas, igrejas, etc. A esse tipo de coleta dá-se o nome de “coleta externa”.

De forma a cuidar dos interesses dos doadores e promover a doação de sangue voluntária existem diversas organizações de voluntários e clubes de doadores que atuam localmente. Muitos hemocentros e bancos de sangue possuem também uma área própria de captação para cumprir com estes fins.


A FIODS – Federação Internacional das Organizações de Doadores de Sangue, tem como principal objetivo promover em todos os países do mundo a doação voluntária, anônima e regular de sangue.



Resumo e questões 
No Brasil as primeiras transfusões de sangue aconteceram por volta de 1900 e o sistema de coleta de sangue estabeleceu-se a partir da Segunda Guerra Mundial, inicialmente com a doação remunerada.

O comércio de sangue trouxe diversos problemas. Assim, de forma a melhorar a qualidade do sangue coletado e garantir a saúde do doador, diversas ações foram tomadas pelo governo (criação do programa Pró-sangue, regulamentação da doação de sangue, lei proibindo a doação remunerada, criação do programa de Hemovigilância) e por organizações ligadas a causa.

No âmbito do voluntariado a ação de Carlota Osório e a criação da Associação Brasileira de Doadores Voluntários do Sangue, foram essenciais para o estabelecimento da doação voluntária no país e serviram de base para a criação da “Voluntários do Sangue”.

Atualmente o Brasil possui cerca de 1,8% de doadores voluntários e de reposição, continuando em busca da segurança transfusional. E a “Voluntários do Sangue”, busca estabelecer uma rede para a causa da doação voluntária, anônima, não-remunerada e regular de sangue.

  1. Quais os problemas enfrentados devido a doação remunerada de sangue?
  2. Quais as principais providências tomadas para a conquista da doação voluntária?
  3. Qual o nome do programa do Governo criado para garantir a qualidade do sistema de sangue no Brasil?
  4. Quem foi a voluntária homenageada por seu trabalho na luta pela doação voluntária de sangue?
  5. Quando foi dado o passo inicial para a criação de uma Federação Brasileira de Doadores e Voluntários do Sangue?